domingo, 24 de fevereiro de 2008

Duas Mãos

A tempestade que cai nesse momento e deixa tudo claro chega a incomodar. São tantos raios solares que insistem entrar em meu quarto, mesmo com as janelas fechadas, eles acham uma brecha, um vão e vem diretamente em minha direção.
Do ponto de vista religioso, seja qual for a religião, sou uma pessoa especial. Do meu ponto de vista, sou mais uma pessoa que não quer olhar pra fora, pois as olheiras me deixam neste momento com cara de vampiro.
Pode ser tão falso escrever, mas a magia não está no escritor e sim em você, leitor.
Neste exato momento o céu está nublado, os raios de sol não chegam ao solo com a intensidade que pareciam, meus olhos estão normais, mais do que normalmente estariam. Mas a mente de quem lê acredita estar diante de um escritor louco, mais uma vez sou obrigado a dizer que se alguém atreveu-se a ler esse texto ate aqui deveria fazer mais visitas a seu psiquiatra.
Na verdade, eu neste momento fazendo papel de escritor, mesmo que amador, fico feliz em acreditar que um texto só existe por que alguém como você, leitor, o lê. Tudo é feito a duas mãos.
O que seria do texto sem um leitor. O que seria do sol sem a chuva; do pão sem a manteiga; da dama sem o vagabundo; do café sem o leite; da pipoca sem o guaraná; do Tarzan sem a Jane; do abacaxi sem a hortelã. O que seria do verde sem o amarelo; do céu sem o mar; do Eduardo sem a Mônica; do Gim sem a Tônica; dó Cravo sem a Rosa; do lápis sem o papel; da sombra sem a água fresca; do arroz sem o feijão; do futebol sem a cerveja. O que seria de Romeu sem Julieta; do quente sem o frio; do jeans sem a camiseta; de Adão sem Eva; de Édipo sem Jocasta; do Ying sem o Yang, de mim sem você. O que seria do sonho sem um sonhador; da mercadoria sem um comprador; do médico sem um doente; da criança sem a inocência. O que seria do dentista sem o micro-motor; do estudante sem o professor, do livro sem o leitor.
Tudo é sempre feito a duas mãos, mas o sonho pode estar sempre no meio da ilusão. E no bater das asas de um beija-flor a flor. No canto do bem-te-vi eu te vi. No vôo rasante da libélula te vi mais bela. E no fundo do mais profundo sonho existe uma coisa mais bela que a beleza que espera, é a coisa que só quem sente sabe existir, uma compaixão escondida e mesmo que alguns sintam na ferida o mundo é desenhado a duas mãos, por mim e por você, por ele e por ela, por todos e por nós.
Posso nem saber o que escrevi e mesmo assim você me ajudou lendo o que acreditou.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

1/2

Perdido no meio do mundo
Não sei se é legal estar no meio.
No meio da briga, no meio do tiroteio, no meio da rua.
Será que podemos escolher um lado, ou pra alguns o que resta é o meio.
Somos julgados por tantas coisas, mas às vezes nem sabemos o que somos.
As coisas não nos incomodam mais, sempre está bom do jeito que está. Estejamos no topo da cadeia alimentar ou na base dela, no alto da pirâmide ou no fundo do poço.
Somos chamados do que a sociedade quiser nos chamar e tudo bem, pra que discutir? Por que discutir?
Se vamos ao bar somos bêbados, se gostamos de ficar batendo papo com amigos depois da meia-noite somos até drogados. Se vamos ao shopping num dia de folga somos vagabundos, se ficamos vendo TV somos uns desocupados. Será que não tem nada de bom que a sociedade possa dizer.
Não sei se quem, assim como eu, pertence à classe média, não tem dinheiro o bastante pra ser rico, ou se tem dinheiro demais pra ser pobre. O que defini a classe média? Será que as pessoas que ganham um salário mínimo estão na classe média, ou será que os que ganham mais de 4 salários mínimos estão? Acho que a resposta está no teatro. Os que estão nos camarotes e nos lugares onde é possível ver as expressões dos atores são os ricos, os que estão nos chamados balcões e numa distância que é possível ver os atores, mas impossível ver as expressões são os de classe média. Os que estão do lado de fora, ou trabalhando dentro do banheiro do teatro, são os pobres. Talvez essa seja uma boa definição.
O acesso a cultura é essencial pra formação do cidadão, mas que cidadão? É verdade que existem algumas manifestações populares, mas ate essas não são o que parece.
Este não é pra ser um texto político, apesar de parecer o contrario.
O carnaval é pra quem? Pra quem sabe sambar ou é pra quem paga pra se divertir?
Pra quem compra o abadá ou para os pipoqueiros?
Os hospitais são pra quem? As escolas são pra quem? E as universidades públicas são pra quem?
Podia ficar escrevendo milhões e milhões de perguntas, mas só uma é importante.
Somos pra quem? Pra nos mesmos ou para os outros?
Acho que somos para os amigos que precisam de nós e para os inimigos que precisam ainda mais, pois estes alimentam o seu ego tentando destruir o nosso. Em síntese não funciona pra nós, mas é muito útil a eles. É bom saber que fazemos à diferença até para os que nos odeiam.
Se você quiser acabar com o seu inimigo, coisa que eu particularmente não recomendo, basta dar um oi e ser gentil para com ele.
É bom ter inimigos, quando digo inimigos não me refiro só àqueles que querem nos ver mortos, mas a todos que de algum modo querem que você seja inferior a ele. Digo que é bom ter inimigos, pois esta é a maior prova de que você é melhor que alguém. Os inimigos só querem ser o que você é. E por isso sentem-se tão incomodados.
Não era pra ser um texto político, também não era pra ser um texto sobre inimigos, mas bem; nem sempre estamos daquele jeito pra escrever, as vezes as coisas não saem exatamente como queremos. A única coisa que posso concluir aqui neste final, é que continuarei com todas as minhas perguntas, inclusive porque algumas pessoas tem tanta magoa dentro de si e porque que as pessoas tem tanta aversão a quem é feliz.
Parece que fica todo mundo meio perdido, parece que o mundo todo está perdido dentro do mundo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Interser

Esse é mais um destes textos que não podemos deixar de partilhar...Um texto ao qual eu ainda não conhecia, foi apresentado na Universidade, durante a aula de educaçao ambiental, vale a pena doar alguns minutos a essa obra....


“Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir este papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel intersão. Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical inter com o verbo ser, teremos um novo verbo: interser.
Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está nesta folha de papel. O papel e o sol intersão. E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia. Portanto o trigo que se transforma em pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. Quando olhamos desta forma, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não teria condições de existir.
Ao olharmos ainda mais fundo, vemos também a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela- o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste nesta folha de papel. É por isso que para mim a palavra interser deveria ser dicionarizada. Ser é interser. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados. Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é.
Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol, nada pode existir. Se devolvermos o lenhador a sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não papel. Se devolvermos estes elementos a suas origens, não haverá papel algum. Sem estes elementos não papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela.”

(Thich Nhât Hanh, monge budista .)