Eram gritos de muitos lados.
Batidas da janela com a bengala que sustentavam as pernas.
Músicas cantadas durante noite toda sem o acompanhamento da viola.
Gemidos de frio. Gemidos de calor.
Nunca era o silêncio.
Sempre havia um som vindo de algum lugar.
Na grande maioria das vezes, saído das cordas vocais de um ser humano.
Foram dias. Meses. Anos...
Longos anos...
Durante muito tempo eu pedi o silêncio.
Queria paz.
Queria me concentrar.
Queria poder ouvir o que eu queria.
A voz de outras pessoas era, por vezes, encoberta por esse som.
Um, dois, três, dez, cem, mil... talvez um milhão de pedidos para fazer silêncio.
Ao invés disso, só aumentava.
Aumentava pela força da voz.
Pelos gritos.
Multiplicado, muitas vezes, simplesmente pelo número de bocas.
De repente...
.
.
.
Silêncio!
.
.
.
Nenhuma voz.
Nenhuma fala.
Não vinha mais ninguém.
Não se ouvia nenhum ser.
O silêncio se tornou o novo normal
Por vezes tão forte, que doía na alma...
Nós pedidos o silêncio.
O silêncio veio.
Hoje o silêncio dói.
Vem de dentro.
Forte!
Muitas vezes ensurdecedor.
Eu pedi o silêncio,
mas fui mal interpretado.
Eu só queria o silêncio, não queria a ausência.
Saiba o que você pede.
Você pode ser ouvido!

